Porto, 22 de dezembro de 1979
Zézim,
cheguei hoje de tardezinha da praia, fiquei lá uns cinco dias, completamente só (ótimo!), e encontrei tua carta. Esses dias que tô aqui, dez, e já parece um mês, não paro de pensar em você. Tou preocupado, Zézim, e quero te falar disso. Fica quieto e ouve, ou lê, você deve estar cheio de vibrações adeliopradianas e, portanto, todo atento aos pequenos mistérios. É carta longa, vai te preparando, porque eu já me preparei por aqui com uma xícara de chá Mu, almofada sob a bunda e um maço de Galaxy, a decisão pseudo-inteligente.
Seguinte, das poucas linhas da tua carta, 12 frases terminam com ponto de interrogação. São, portanto, perguntas. Respondo a algumas. A solução, concordo, não está na temperança. Nunca esteve nem vai estar. Sempre achei que os dois tipos mais fascinantes de pessoas são as putas e os santos, e ambos são inteiramente destemperados, certo? Não há que abster-se: há que comer desse banquete. Zézim, ninguém te ensinará os caminhos. Ninguém me ensinará os caminhos. Ninguém nunca me ensinou caminho nenhum, nem a você, suspeito. Avanço às cegas. Não há caminhos a serem ensinados, nem aprendidos. Na verdade, não há caminhos. E lembrei duns versos dum poeta peruano (será Vallejo? não estou certo): "Caminante, no hay camino. Pero el camino se hace ai anda".
Mais: já pensei, sim, se Deus pifar. E pifará, pifará porque você diz ”Deus é minha última esperança". Zézim, eu te quero tanto, não me ache insuportavelmente pretensioso dizendo essas coisas, mas ocê parece cabeça-dura demais. Zézim, não há última esperança, a não ser a morte. Quem procura não acha. É preciso estar distraído e não esperando absolutamente nada. Não há nada a ser esperado. Nem desesperado. Tudo é maya / ilusão. Ou samsara / círculo vicioso.
Certo, eu li demais zen-budismo, eu fiz ioga demais, eu tenho essa coisa de ficar mexendo com a magia, eu li demais Krishnamurti, sabia? E também Allan Watts, e D. T. Suzuki, e isso freqüentem ente parece um pouco ridículo às pessoas. Mas, dessas coisas, acho que tirei pra meu gasto pessoal pelo menos uma certa tranqüilidade.
Você me pergunta: que que eu faço? Não faça, eu digo. Não faça nada, fazendo tudo, acordando todo dia, passando café, arrumando a cama, dando uma volta na quadra, ouvindo um som, alimentando a Pobre. Você tá ansioso e isso é muito pouco religioso. Pasme: acho que você é muito pouco religioso. Mesmo. Você deixou de queimar fumo e foi procurar Deus. Que é isso? Tá substituindo a maconha por Jesusinho? Zézim, vou te falar um lugar-comum desprezível, agora, lá vai: você não vai encontrar caminho nenhum fora de você. E você sabe disso. O caminho é in, não off. Você não vai encontrá-lo em Deus nem na maconha, nem mudando para Nova York, nem.
Você quer escrever. Certo, mas você quer escrever? Ou todo mundo te cobra e você acha que tem que escrever? Sei que não é simplório assim, e tem mil coisas outras envolvidas nisso. Mas de repente você pode estar confuso porque fica todo mundo te cobrando, como é que é, e a sua obra? Cadê o romance, quedê a novela, quedê a peça teatral? DANEM-SE, demônios. Zézim, você só tem que escrever se isso vier de dentro pra fora, caso contrário não vai prestar, eu tenho certeza, você poderá enganar a alguns, mas não enganaria a si e, portanto, não preencheria esse oco. Não tem demônio nenhum se interpondo entre você e a máquina. O que tem é uma questão de honestidade básica. Essa perguntinha: você quer mesmo escrever? Isolando as cobranças, você continua querendo? Então vai, remexe fundo, como diz um poeta gaúcho, Gabriel de Britto Velho, "apaga o cigarro no peito / diz pra ti o que não gostas de ouvir / diz tudo". Isso é escrever. Tira sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a "função social", nem nada, não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto-exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te. Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora. A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação: um sentimento de glória interior. Essa expressão é fundamental na minha vida.
Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima, Zézim. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sangrada de tudo. Te falo nela porque Clarice, pra mim, é o que mais conheço de GRANDIOSO, literariamente falando. E morreu sozinha, sacaneada, desamada, incompreendida, com fama de "meio doida”. Porque se entregou completamente ao seu trabalho de criar. Mergulhou na sua própria trip e foi inventando caminhos, na maior solidão. Como Joyce. Como Kafka, louco e só lá em Praga. Como Van Gogh. Como Artaud. Ou Rimbaud.
É esse tipo de criador que você quer ser? Então entregue-se e pague o preço do pato. Que, freqüentemente, é muito caro. Ou você quer fazer uma coisa bem-feitinha pra ser lançada com salgadinhos e uísque suspeito numa tarde amena na Cultura, com todo mundo conhecido fazendo a maior festa? Eu acho que não. Eu conheci / conheço muita gente assim. E não dou um tostão por eles todos. A você eu amo. Raramente me engano.
Zézim, remexa na memória, na infância, nos sonhos, nas tesões, nos fracassos, nas mágoas, nos delírios mais alucinados, nas esperanças mais descabidas, na fantasia mais desgalopada, nas vontades mais homicidas, no mais aparentemente inconfessável, nas culpas mais terríveis, nos lirismos mais idiotas, na confusão mais generalizada, no fundo do poço sem fundo do inconsciente: é lá que está o seu texto. Sobretudo, não se angustie procurando-o: ele vem até você, quando você e ele estiverem prontos. Cada um tem seus processos, você precisa entender os seus. De repente, isso que parece ser uma dificuldade enorme pode estar sendo simplesmente o processo de gestação do sub ou do inconsciente.
E ler, ler é alimento de quem escreve. Várias vezes você me disse que não conseguia mais ler. Que não gostava mais de ler. Se não gostar de ler, como vai gostar de escrever? Ou escreva então para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. E eu acho — e posso estar enganado — que é isso que você não tá conseguindo fazer. Como é que é? Vai ficar com essa náusea seca a vida toda? E não fique esperando que alguém faça isso por você. Ocê sabe, na hora do porre brabo, não há nenhum dedo alheio disposto a entrar na garganta da gente.
Ou então vá fazer análise. Falo sério. Ou natação. Ou dança moderna. Ou macrobiótica radical. Qualquer coisa que te cuide da cabeça ou/ e do corpo e, ao mesmo tempo, te distraia dessa obsessão. Até que ela se resolva, no braço ou por si mesma, não importa. Só não quero te ver assim engasgado, meu amigo querido.
Pausa.
Quanto a mim, te falava desses dias na praia. Pois olha, acordava às seis, sete da manhã, ia pra praia, corria uns quatro quilômetros, fazia exercícios, lá pelas dez voltava, ia cozinhar meu arroz. Comia, descansava um pouco, depois sentava e escrevia. Ficava exausto. Fiquei exausto. Passei os dias falando sozinho, mergulhado num texto, consegui arrancá-lo. Era um farrapo que tinha me nascido em setembro, em Sampa. Aí nasceu, sem que eu planejasse. Estava pronto na minha cabeça. Chama-se Morangos mofados, vai levar uma epígrafe de Lennon & McCartney, tô aqui com a letra de Strawberry fields forever pra traduzir. Zézim, eu acho que tá tão bom. Fiquei completamente cego enquanto escrevia, a personagem (um publicitário, ex-hippie, que cisma que tem câncer na alma, ou uma lesão no cérebro provocada por excessos de drogas, em velhos carnavais, e o sintoma — real — é um persistente gosto de morangos mofados na boca) tomou o freio nos dentes e se recusou a morrer ou a enlouquecer no fim. Tem um fim lindo, positivo, alegre. Eu fiquei besta. O fim se meteu no texto e não admitiu que eu interferisse. Tão estranho. Às vezes penso que, quando escrevo, sou apenas um canal transmissor, digamos assim, entre duas coisas totalmente alheias a mim, não sei se você entende. Um canal transmissor com um certo poder, ou capacidade, seletivo, sei lá. Hoje pela manhã não fui à praia e dei o conto por concluído, já acho que na quarta versão. Mas vou deixá-lo dormir pelo menos um mês, aí releio — porque sempre posso estar enganado, e os meus olhos de agora serem incapazes de verem certas coisas.
Aí tomei notas, muitas notas, pra outras coisas. A cabeça ferve. Que bom, Zézim, que bom, a coisa não morreu, e é só isso que eu quero, vou pedir demissão de todos os empregos pela vida afora quando sentir que isso, a literatura, que é só o que tenho, estiver sendo ameaçada como estava, na Nova.
E li. Descobri que ADORO DALTON TREVISAN. Menino, fiquei dando gritos enquanto lia A faca no coração, tem uns contos incríveis, e tão absolutamente lapidados, reduzidos ao essencial cintilante, sobretudo um, chamado "Mulher em chamas". Li quase todo o Ivan Ângelo, também gosto muito, principalmente de O verdadeiro filho da puta, mas aí o conto-título começou a me dar sono e parei. Mas ele tem um texto, ah se tem. E como. Mas o melhor que li nesses dias não foi ficção. Foi um pequeno artigo de Nirlando Beirão na última IstoÉ (do dia 19 de dezembro, please, leia), chamado "O recomeço do sonho". Li várias vezes. Na primeira, chorei de pura emoção - porque ele reabilita todas as vivências que eu tive nesta década. Claro que ele fala de uma geração inteira, mas daí saquei, meu Deus, como sou típico, como sou estereótipo da minha geração. Termina com uma alegria total: reinstaurando o sonho. É lindo demais. É atrevido demais. É novo, sadio. Deu uma luz na minha cabeça, sabe quando a coisa te ilumina? Assim como se ele formulasse o que eu, confusamente, estava apenas tateando. Leia, me diga o que acha. Eu não me segurei e escrevi uma carta a ele dizendo isso. Não sou amigo dele, só conhecido, mas acho que a gente deve dizer.
Escrevendo, eu falo pra caralho, não é?
Aqui em casa tá bom. É sempre um grande astral, não adianta eu criticar. O astral ótimo deles independe da opinião que eu possa ter a respeito, não é fantástico? A casa tá meio em obras, Nair mandou construir uma espécie de jardim de inverno nos fundos, vai ligar com a sala. Hoje estava puta porque o Felipe não vai mais fazer vestibular: foi reprovado novamente no 3º colegial. Minha irmã Cláudia ganhou uma Caloi 10 de Natal do noivo (Jorge, lembra?), e eu me apossei dela e hoje mesmo dei voltas incríveis pelo Menino Deus(?). Márcia tá bonita, mais adultinha, assim com um ar meio da Mila. Zaél cozinhando, hoje faz arroz com passas para o jantar.
Povos outros, nem vi. Soube que A comunidade está em cartaz ainda e tenho granas pra receber. Amanhã acho que vou lá.
Tô tão só, Zézim. Tão eu-eu-comigo, porque o meu eu com a família é meio de raspão. Tá bom assim, não tenho mais medo nenhum de nenhuma emoção ou fantasia minha, sabe como? Os dias de solidão total na praia foram principalmente sadios.
Ocê viu a Nova? Tá lá o seu Chico, tartamudeante, e uma foto muito engraçada de toda a redação — eu com cara de "não me comprometam, não tenho nada a ver com isso". Dê uma olhada. Falar nisso, Juan passou por aqui, eu tava na praia, falou com Nair por telefone, estava descendo de um ônibus e subindo noutro. Deixou dito que volta dia três de janeiro ou fevereiro, Nair não lembra, pra ficar uns dias. Ficará? E nada acontecerá. Uma vez me disseram que eu jamais amaria dum jeito que "desse certo", caso contrário deixaria de escrever. Pode ser. Pequenas magias. Quando terminei Morangos mofados, escrevi embaixo, sem querer, "criação é coisa sagrada”. É mais ou menos o que diz o Chico no fim daquela matéria. É misterioso, sagrado, maravilhoso.
Zézim, me dê notícias, muitas, e rápido. Eu não pensei que ia sentir tanta falta docê. Não sei quanto tempo ainda fico, mas vou ficando. Quero escrever mais, voltar à praia, fazer os documentos todos. Até pensei: mais adiante, quando já estivesse chegando a hora de eu voltar, você não queria vir? A gente faria o mesmo esquema de novo, voltaríamos juntos. A família te ama perdidamente, hoje pintaram até uns salseirinhos rápidos porque todo mundo queria ler a matéria do Chico ao mesmo tempo.
Let me take you down
cause I'm going to strawberry fields
nothing is real, and nothing to get hung about
strawberry fields forever
strawberry fields forever
strawberry fields forever
Isso é o que te desejo na nova década. Zézim, vamos lá. Sem últimas esperanças. Temos esperanças novinhas em folha, todos os dias. E nenhuma, fora de viver cada vez mais plenamente, mais confortáveis dentro do que a gente, sem culpa, é. Let me take you: I'm going to strawberry fields.
Me conta da Adélia.
E te cuida, por favor, te cuida bem. Qualquer poço mais escuro, disque 0512-33-41-97. Eu posso pelo menos ouvir. Não leve a mal alguma dureza dita. É porque te quero claro. Citando Arantes, pra terminar: "Eu quero te ver com saúde I sempre de bom humor I e de boa vontade".
Um beijo do
Caio
PS — Abraço pro Nello. Pra Ana Matos, e Nino também.
(Caio Fernando Abreu)
Extraído daqui.
09/11/2009
05/11/2009
PENSANDO
Hoje mesmo me hão dito que este Teleférico estava mais abandonado que puta no Natal. Eu concordo! Mas não foi por descaso não, nem mesmo pra passar as festas comendo frutas secas e panetone na companhia da mulher e das crianças. Até mesmo porque dezembro nem chegou ainda! Também não foi por falta de assunto. Uma vez inclusive me sentei no computador para escrever algumas conclusões a que cheguei sobre o nosso povo brasileiro. Mas acabou que parei o texto no meio e depois joguei no lixo. Também tive vontade de comentar muitas outras coisas, por exemplo, que finalmente li O Pequeno Príncipe, que achei o Roberto Justus muito mais simpático no novo programa dele no SBT, que tive de me render ao preço baixo do Dia%, que continuo na busca de coisas que me façam feliz (aliás, pensei também em escrever um texto sobre a obrigação de ser feliz, especialmente estimulada pela publicidade e ainda mais patente nesta época em que se aproxima o final do ano)...
Pensei em comentar que a novela do Maneco é a pior de todas que ele já escreveu (se é que quem está escrevendo é ele, visto que na abertura aparecem mais colaboradores do que atores), em gongar o Vegas, fazendo piada da lenda em que se tranformou o encerramento de suas atividades (faz mais de um ano que eles dizem que vão fechar!), em falar das Olimpíadas no Rio, da inauguração das novas faixas na Marginal Tietê, do Google Wave, que eu ainda não descobri como funciona, enfim...
Mas acho que acabei não escrevendo sobre nada disso porque, bom patrão que sou de mim mesmo, resolvi me dar férias. Não que o blog seja uma imposição da qual eu precise descansar (aliás, o intuito é justamente esse — fazer algo que não seja por obrigação). Mas resolvi tirar férias de dizer pros outros o que eu penso. Já que, de pensar, pelo jeito não tem muito como fugir!
E, para que todos percebam que nunca me esqueci do Teleférico — nem do meu público maravilhoso (aliás, já repararam que não existe outro adjetivo para "público"?) —, vai aí uma prova:
Entrada para o teleférico, em Santorini
Pensei em comentar que a novela do Maneco é a pior de todas que ele já escreveu (se é que quem está escrevendo é ele, visto que na abertura aparecem mais colaboradores do que atores), em gongar o Vegas, fazendo piada da lenda em que se tranformou o encerramento de suas atividades (faz mais de um ano que eles dizem que vão fechar!), em falar das Olimpíadas no Rio, da inauguração das novas faixas na Marginal Tietê, do Google Wave, que eu ainda não descobri como funciona, enfim...
Mas acho que acabei não escrevendo sobre nada disso porque, bom patrão que sou de mim mesmo, resolvi me dar férias. Não que o blog seja uma imposição da qual eu precise descansar (aliás, o intuito é justamente esse — fazer algo que não seja por obrigação). Mas resolvi tirar férias de dizer pros outros o que eu penso. Já que, de pensar, pelo jeito não tem muito como fugir!
E, para que todos percebam que nunca me esqueci do Teleférico — nem do meu público maravilhoso (aliás, já repararam que não existe outro adjetivo para "público"?) —, vai aí uma prova:
Entrada para o teleférico, em Santorini
24/09/2009
101,7 MHz
(Com a voz fanha.) 19 horas e 53 minutos. Você está na Alpha FM, Sequência de Classe. Primeiro você ouviu Michael Jackson, com Human Nature. Depois foi a vez de Madonna, com Live to Tell. Você curtiu também Simply Red, Tony Braxton e Roxette, com Spending My Time. No relógio, 19h54. Para fechar a nossa sequência, você fica com C&C Music Factory, Take a Toke. Eu me despeço por aqui. E continue conosco, após o intervalo tem Alpha by Night!
23/09/2009
NUMEROLOGIA
Caminhando na chuva hoje, passei na frente do prédio onde eu morava, na avenida Jurucê (amo você). E, sempre que a gente passa num lugar onde a gente já morou, vêm aquelas lembranças de como era viver a vida ali. Eu gostava muito do apartamento da Jurucê, fui bastante feliz lá. Foi basicamente na época em que morava ali que consegui minha independência e deixei de precisar do dinheiro dos meus pais (até mesmo o aluguel eu passei a pagar). Foi morando lá também que comecei a sair de balada (velhos tempos da Trash 80's), que fui ficando mais amigo dos meus melhores amigos hoje, que fui desbravando a cidade e até mesmo o mundo. Os porteiros eram gente boníssima, os moradores eram supertranquilos (não tinham a voracidade de reformar o apartamento a cada quinze dias, como acontece no prédio onde eu moro hoje), a garagem era fácil de estacionar, enfim... Só boas recordações mesmo! E tudo isso num apartamento número 54, que, segundo a numerologia de Aparecida Liberato, não é lá o melhor número para uma casa.
Acho que só isso pra mim já comprova que a irmã do Gugu é mesmo uma farsa. Lembro que ela ia semanalmente no Domingo Legal fazer a numerologia das velhas do auditório.
— Qual o número da sua casa, querida?
— 122.
— Nesse caso, a soma dos números é igual a 5. E 5 não é um bom número. O melhor é o 6. Então, coloque uma letrinha A do lado do número da sua casa para atrair boas energias.
E isso se repetia durante três horas (o Gugu nunca teve noção de tempo) todo santo domingo.
Quando encheu o saco da numerologia para o lar, passou-se para a numerologia dos carros.
— Qual a placa do seu carro, minha senhora?
— ABC 1234.
— A soma dá 16, que é igual a 7. Também não é um bom número. Seria melhor se a senhora escrevesse no cantinho da placa a letra H, que equivale a 8. Assim, a soma de 7 mais 8 vai gerar um 15, que é o mesmo que 6.
E lá ficavam as gordas da plateia se engalfinhando para que a numeróloga lhes passasse a chave da felicidade também no nível automobilístico.
Quem é mais velho acompanhou ainda a febre da mudança de nomes dos artistas. Acho que foi no começo dos anos 90 que Sandra Sá acrescentou um "de", Jorge Ben repetiu o "jor" no final do nome, e por aí vai. Cristina Rocha encheu o nome de H's e Y's, mas hoje acho que voltou a ser Cristina. Núbia Oliver já fez de tudo também (dois I's, pôs R, tirou R, se duvidar trocou até o pingo do i por trema), mas continua semidesconhecida.
Enfim, não preciso dizer que acho tudo isso um monumento à abstração. Meu apartamento soma 9 me trouxe dias excelentes, e nunca precisei colocar nenhuma letrinha depois do número. Aliás, tem uma coisa que eu sempre quis perguntar pra Aparecida Liberato (e que considero mais uma prova da charlatanice da pessoa): se se somam as letras e números da placa do carro, porque não se somam também as letras do nome da cidade e da sigla do estado? Elas estão tão escritas quanto a letrinha que o pobre coitado vai pôr ali do lado, a lápis. O mesmo também pra casa: se você vai escrever um A do lado do número, por que não somar as letras que muitas vezes aparecem na pichação que tem na fachada ou mesmo numa placa, no caso de um estabelecimento comercial? Vai entender a lógica da Liberato. Falando nisso, por onde andará a dita-cuja? Ultimamente ela está tão desaparecida...
Acho que só isso pra mim já comprova que a irmã do Gugu é mesmo uma farsa. Lembro que ela ia semanalmente no Domingo Legal fazer a numerologia das velhas do auditório.
— Qual o número da sua casa, querida?
— 122.
— Nesse caso, a soma dos números é igual a 5. E 5 não é um bom número. O melhor é o 6. Então, coloque uma letrinha A do lado do número da sua casa para atrair boas energias.
E isso se repetia durante três horas (o Gugu nunca teve noção de tempo) todo santo domingo.
Quando encheu o saco da numerologia para o lar, passou-se para a numerologia dos carros.
— Qual a placa do seu carro, minha senhora?
— ABC 1234.
— A soma dá 16, que é igual a 7. Também não é um bom número. Seria melhor se a senhora escrevesse no cantinho da placa a letra H, que equivale a 8. Assim, a soma de 7 mais 8 vai gerar um 15, que é o mesmo que 6.
E lá ficavam as gordas da plateia se engalfinhando para que a numeróloga lhes passasse a chave da felicidade também no nível automobilístico.
Quem é mais velho acompanhou ainda a febre da mudança de nomes dos artistas. Acho que foi no começo dos anos 90 que Sandra Sá acrescentou um "de", Jorge Ben repetiu o "jor" no final do nome, e por aí vai. Cristina Rocha encheu o nome de H's e Y's, mas hoje acho que voltou a ser Cristina. Núbia Oliver já fez de tudo também (dois I's, pôs R, tirou R, se duvidar trocou até o pingo do i por trema), mas continua semidesconhecida.
Enfim, não preciso dizer que acho tudo isso um monumento à abstração. Meu apartamento soma 9 me trouxe dias excelentes, e nunca precisei colocar nenhuma letrinha depois do número. Aliás, tem uma coisa que eu sempre quis perguntar pra Aparecida Liberato (e que considero mais uma prova da charlatanice da pessoa): se se somam as letras e números da placa do carro, porque não se somam também as letras do nome da cidade e da sigla do estado? Elas estão tão escritas quanto a letrinha que o pobre coitado vai pôr ali do lado, a lápis. O mesmo também pra casa: se você vai escrever um A do lado do número, por que não somar as letras que muitas vezes aparecem na pichação que tem na fachada ou mesmo numa placa, no caso de um estabelecimento comercial? Vai entender a lógica da Liberato. Falando nisso, por onde andará a dita-cuja? Ultimamente ela está tão desaparecida...
18/09/2009
AUTOBIOGRAPHIA LITERARIA
When I was a child
I played by myself in a
corner of the schoolyard
all alone.
I hated dolls and I
hated games, animals were
not friendly and birds
flew away.
If anyone was looking
for me I hid behind a
tree and cried out, "I am
an orphan."
And here I am, the
center of all beauty!
writing these poems!
Imagine!
(Frank O'Hara)
Peguei esse do blog da Letícia! Lá aparece traduzido. Mas são lindas as duas versões!
I played by myself in a
corner of the schoolyard
all alone.
I hated dolls and I
hated games, animals were
not friendly and birds
flew away.
If anyone was looking
for me I hid behind a
tree and cried out, "I am
an orphan."
And here I am, the
center of all beauty!
writing these poems!
Imagine!
(Frank O'Hara)
Peguei esse do blog da Letícia! Lá aparece traduzido. Mas são lindas as duas versões!
16/09/2009
A DE AMOR, B DE BAIXINHO
Faltando poucos dias para meu desembarque na terra helênica, gostaria de deixar aqui no blog uma dúvida levantada pelo Lucas, na esperança de que alguém possa se manifestar sobre ela: por que é que foram necessárias quatro letras latinas para formar a palavra "abecedário" se o problema já tinha sido resolvido com apenas duas letras gregas, "alfabeto"?
Na esteira, eu acrescento: seria errado chamar o alfabeto grego de abecedário?
Pensemos!
Na esteira, eu acrescento: seria errado chamar o alfabeto grego de abecedário?
Pensemos!
14/09/2009
BREGA E CHIQUE
"Analisando essa cadeia hereditária, quero me livrar dessa situação precária, onde o rico cada vez fica mais rico e o pobre cada vez fica mais pobre. E o motivo todo mundo já conhece: é que o de cima sobre e o de baixo desce."
(As meninas, Xibom bombom)
(As meninas, Xibom bombom)
Pois é, não existissem ricos, também não haveria pobres. E vice-versa. Disso todo mundo já sabe. Mas o que mais me intriga, especialmente levando em consideração que tem muito, mas muito menos ricos do que pobres, é que a riqueza chame menos atenção do que a pobreza. Ou alguém aí já viu um jeep tour pelo Shopping Cidade Jardim? Pensando nisso é que eu, Cohen e a venezuelana fomos desbravar novos territórios neste fim de semana. Tudo bem, eu já tinha ido lá em outras duas ocasiões, mas só agora consegui mergulhar de forma mais inteira no complexo do alto luxo paulistano.
Pulseiras de 25 mil reais, relógios de 85 mil reais, calças de viscose de 900 reais... Quanta abstração! Mas, o estilo neoclássico à parte, não dá pra negar que o lugar é mesmo muito agradável. O terraço, então, nem se fala! E a livraria? Quanto espaço! Dá pra passar o dia todo lá dentro sem se aborrecer. Lógico, desde que você se dedique aos livros e não fique de ouvido espichado na conversa alheia, cheia de cortesias, risadas sutis e frases do tipo "Estou completamente de acordo com você". Quem fala desse jeito? Nem nas novelas do Maneco...
E tudo bem também que, ao sair do shopping, você terá um "choque de realidade" ao deparar com um busão Terminal Capelinha passando na sua frente. Mas a experiência de encontrar uma filial da Baked Potato que vende batata com recheio de caviar não tem preço! Vale o passeio! Aliás, só o nome dessa filial já é digno de todo um estudo antropológico: Baked Potato Boutique. Nada mais fino! Nada mais sofisticado! Nada mais exclusivo! Se bem que muitas vezes fico me perguntando por que é que os publicitários insistem em achar tão maravilhoso assim destacar os produtos para as classes mais abastadas com nomes do tipo Boutique, VIP, Première, Grand Elite, Special, Personalité, Prime... Será que não passou pela cabeça de nenhum deles que, vendendo as coisas desse jeito, o chique fica parecendo cada dia mais brega?
E, se as coisas continuarem assim, quem sabe um dia o preço dos apartamentos ali não fique mais acessível? Sem falar que, como já aconteceu com muitos bairros da cidade ao longo da história, aquilo lá pode perfeitamente entrar em processo de decadência. Já pensaram em 2095? Cortiço Cidade Jardim?
11/09/2009
09/09/2009
DE VUELTA
Hoy caminé hacia el gimnasio, pero no fue por Cabildo. Hoy herví el agua, pero no fue para el mate. Hoy comí en un restaurante, pero las viejas de Caballito ya no estaban. Hoy vi palomas, pero no las tomé fotos. Hoy fui al supermercado, pero no había pesos en mi billetera. Hoy llovió.
02/09/2009
PÁJARO LOCO
Passa das 3 da manhã (na verdade já são quase 3:30) e estou indo dormir. Mas há um passarinho ensandecido cantando alto pela região. Em que fuso vive esse bicho, meu deus?
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